
Ontem, conversando sobre aulas de Literatura, com uma ex-estudante minha, tive que explicar qual era a real função da educação. A garota me perguntou qual era o livro que eu estava trabalhando, com os meus estudantes de terceiro ano, no momento... Eu lhe disse que estávamos analisando “As Vítimas Algozes” do Joaquim Manuel; o susto que ela levou me deixou ainda mais assustado. “E você acha que vai dar tempo?” – eu, de início, não entendi o motivo da sua pergunta, porém, depois de mais algumas palavras dela, eu comecei a perceber que o seu medo era que os estudantes não estivessem aptos a prestar o vestibular.
Aquilo me deu uma angústia tão grande, que eu fiquei pensando nisso o dia inteiro. Será que é possível que o único interesse do estudante, hoje, seja a aprovação do maldito vestibular? Esse “câncer” da sociedade brasileira está tomando conta da real valorização da educação. Hoje, o estudante não tem interesse em aprender... Quando o educador tenta ministrar o conhecimento, de alguma forma, ouve do seu pupilo a seguinte pergunta: “Professor, isso cai no vestibular?” – Aposto que, qualquer professor de verdade, deva ter vontade de sair correndo e armar uma revolução na porta do congresso.
Na minha época de estudante colegial, sempre quis aprender. Nos tempos de hoje, conheço muitas coisas que aprendi na escola e que sei discutir com quem quer que seja. Os meus mestres me ensinaram a buscar o senso crítico; me fizeram conhecer a minha própria mente, me fizeram ser um ser pensante. Atualmente, os estudantes querem, apenas, decorar... decorar.. decorar.
Será que ninguém vê esse simples aspecto errôneo tomar conta e destruir o que ainda nos resta do aprendizado? Quando é que vamos perceber que vestibular é pros fracos? Quando é que vamos perceber que com esse método a nossa educação só vai ser diluída no poço mágico da destruição e do esquecimento? Vestibular é um exame que “escolhe”, apenas, os que estão, irritantemente, sob a custódia de um arreio. Responder a uma proposição que lhe é imposta é a forma mais medíocre de nomear um aprovado.
Coloquemos esses mesmos estudantes para escrever uma boa dissertação, ou para gerirem um artigo científico de tamanho objetivo (ou objeto) e vejamos se eles são, fatidicamente, capazes de se adequarem às suas próprias opiniões. Marcar um (X) não faz do estudante um universitário. Para que voltemos com o desejo de aprender, precisamos extinguir essa idéia maquiavélica do Vestibular. O estudante (o jovem, o adulto...) deve querer estudar para aprender. Hoje, com tantas universidades, fica fácil estar lá e se tornar um deles; queria ter de volta aquele orgulho de ser aprovado em uma instituição porque somos bons.
Precisamos de mais qualidade... Precisamos de mais vontade. Para isso, é necessário que excluamos essa idéia de um exame sifilítico, que deturpa a imagem da nossa sociedade, e apontemos para um plano maior. Apontemos para uma ordem consumada na própria colocação do aluno. Busquemos os históricos; façamos que eles estudem mais. Pontuemos e qualifiquemos o aprendizado do estudante a ponto de isso reforçar o seu futuro. Se um aluno, hoje, perde um ano, não lhe fará diferença alguma nos tempos do amanhã... Então, para que estudar duro?
